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A terceira versão da FLIPORTO, realizada em setembro do ano
passado, internacionalizou-se e transformou o Brasil em um
pólo congregador dos países latino-americanos, treze deles
fazendo-se representar através de vários de seus escritores:
Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Nicarágua,
Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana,Uruguai,
Venezuela. Angola foi representada por Agualusa e a Galícia
por Xosé Lois Garcia. Foram ao todo 135 participantes, sendo
40 estrangeiros (cinco deles radicados em Pernambuco), 40
escritores dos vários Estados e 55 pernambucanos.
Os homenageados foram: Frida Kahlo; que no ano passado
completaria 100 anos de nascimento, Hermilo Borba Filho;
Ariano Suassuna; Gabriel García Márquez; Moacyr Scliar;
Gabriela Mistral; Carice Lispector; Nélida Piñon; Marcus
Accioly; Abreu e Lima e José Olympio. Entre os muitos
escritores, Antonio Torres, Antonio Carlos Secchin, Márcio
Souza, Sábato Magaldi, Thiago de Mello, Vicente Franz Cecim
(Brasil); Fabian Casas (Argentina); Armando Romero e Daleth
Restrepo (Colômbia), Alex Pausides e Aitana Alberti (Cuba);
Odi González (Peru), Francisco Ruiz Udiel (Nicarágua),
Etnairis Rivera(Porto Rico), Rei Berroa (República
Dominicana).
A escritora Nélida Piñon foi responsável pela apoteose da
abertura: "toda a história humana pode estar dentro de uma
frase feliz", afirmou. Primeira mulher a presidir a Academia
Brasileira de Letras, ocupando hoje a cadeira de número 30, e
uma das principais homenageadas da FLIPORTO, Nélida repartiu
experiências de criação com o público. "Acredito que não se
pode ser um escritor moderno sem ser arcaico. Precisamos de no
mínimo cinco mil anos de inspiração", defendeu a escritora,
reverenciando a importância e contribuição da história para a
literatura. Confessa apaixonada pelos clássicos gregos como
Homero (autor de Ilíada e Odisséia) e do
filósofo Aristóteles, Nélida acredita que "a arte nasce do
caos, da riqueza humana”. A apoteose do encerramento esteve a
cargo de Ariano Suassuna, com uma extraordinária
aula-espetáculo, causando delírio na multidão que se comprimia
no grande auditório do Hotel Armação.
O Brasil literário estava distanciado do resto da América
Latina, acredito que a FLIPORTO contribuiu para uma
reaproximação. De uma maneira quase informal, possibilitamos
uma aproximação entre os escritores com o público que
participou ativamente dos painéis. Sempre buscando a troca de
experiências, a curadoria organizou os painéis mesclando
escritores brasileiros com estrangeiros para ressaltar a
diversidade e estimular a troca de experiências. Se as duas
versões iniciais da FLIPORTO colocaram a cidade de Porto de
Galinhas no calendário cultural do Estado de Pernambuco, a
terceira lhe deu um destaque entre os encontros literários
nacionais e internacionais. A partir de uma conjugação de
lastro acadêmico atualizado com a vitalidade da presença do
autor e do livro, em painéis estruturados conforme motivações
estéticas e ideológicas, foi construída uma plataforma leve,
ágil, mas consistente e profunda, no trato da literatura. Um
formato de evento especial que retrata a experiência
intercultural e a partir dela fez evoluir as exposições e
debates, palestras, recitais, entrevistas e leituras.
Curiosas oficinas literárias, como a de poesia quéchua pelo
peruano Odi Gonzales, chamaram a atenção do público para
culturas ancestrais da América Latina, mostrando como a
cultura maia, por exemplo, antecipou, em muitos séculos, a
linguagem cifrada dos modernos computadores.
Na praia de Porto de Galinhas, antigo porto de escravos, nos
dias 06 a 09 de novembro, dar-se-á o encontro/reencontro das
etnias: escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné
Bissau, São Tomé e Príncipe, debatendo temas de interesse
comum com escritores brasileiros, hispano-americanos, autores
portugueses e espanhóis estudiosos do pós-colonialismo,
teóricos fundamentais contemporâneos dos estudos inter-étnicos
e culturais.
E dar-se-á a travessia do Atlântico, mas no sentido inverso
ao dos navios negreiros que trouxeram ao nosso continente mais
de 9 milhões de escravos, a partir dos primeiros anos do
século XVI. Aos 120 anos da Abolição, celebraremos o
significado da África no Brasil e na América Latina, nós,
afro-brasileiros, afro-latinos, latino-americanos a congregar
os vários desdobramentos da diáspora africana nestes tempos
pós-coloniais. Conscientes de suas vastas raízes, sabedores
que os próprios iberos colonizadores já traziam dentro de si o
sangue norte-africano, após oito séculos em que eles dominaram
a península.
A FLIPORTO acontece de forma descentralizada, com programações
literária, social, infantil e gastronômica. Este ano, a festa
amplia o leque de opções para os participantes ao incluir um
circuito turístico-cultural e um circuito de artes visuais,
com exposições de artes plásticas e de fotografia. Quem
estiver à distância, poderá acompanhar as discussões através
de uma TV e Rádio ao vivo através da Internet.
Tudo dentro da perspectiva característica da FLIPORTO, que não
vê a literatura como mero entretenimento, mas como fator
educacional de formação humanística, de equilíbrio existencial
por meio da imaginação, como parte arquetípica e ancestral da
cultura, como princípio ético/estético a preencher o vazio e
fortalecer no homem a coragem, a resistência, o gosto da
beleza, a busca de si mesmo, a solidariedade e a alegria de,
através do texto literário, comemorar o sonho e a magia de
estar vivo, por entre a injustiça, o sofrimento e o absurdo.
ANTÔNIO CAMPOS
Setembro/2008
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