Cinema e (re)leituras literárias

15 novembro, 2011 Comentários desativados

Três grandes nomes do cinema e televisão brasileiros discursaram sobre as adaptações literárias



Cinema e (re)leituras literárias

É muito tênue a divisória entre as obras literárias e suas adaptações para o audiovisual – seja no suporte cinematográfico ou televisivo. A relação é considerada antiga e remonta aos princípios do surgimento do cinema, até então um filho do teatro. Os responsáveis pela reflexão sobre esta relação foram os cineastas Guel Arraes, Tizuka Yamasaki e Nelson Pereira dos Santos, sob a mediação do curador do CineFliporto, Alexandre Figuerôa, responsável pela condução das conversas no painel “Como o Cinema e a TV reescrevem a literatura”.

A escolha dos painelistas ampliou o foco de discussões e atraiu um grande público ao local. Enquanto Tizuka Yamazaki prefere trabalhar a partir de textos documentais de pesquisa e Guel Arraes transpõe obras não só para o cinema, mas para a TV, Nelson Pereira dos Santos é considerado um dos maiores intérpretes da literatura nacional através da releitura de obras de Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Jorge Amado e Guimarães Rosa.

Se um filme, antes e a despeito de qualquer coisa, é texto antes de virar imagem através do roteiro, os cineastas divergiram sobre a condução deste processo de transposição. Para Guel, “uma boa adaptação não é uma tradução, mas parceria, pois você pede ‘licença’ ao autor para as modificações necessárias”. Tizuka, por sua vez, se confessou uma “covarde” neste aspecto. “Confesso que sempre peço ajuda a roteiristas, tenho dificuldade em contar uma história em ordem cronológica e numa narrativa linear, talvez por isso eu tenha optado por trabalhar com pesquisas”, esclareceu.

Entretanto, é Nelson quem arranca gargalhadas do público ao revelar que seu processo de roteirização é variado, pois em Vidas Secas, o processo de filmagens das cenas quase não contou com roteiro físico, mas com o seguimento à risca da obra literária. “Já em Tenda dos Milagres, trabalhei em conjunto com Jorge Amado no roteiro, mas ele me pedia alterações que eu simplesmente ignorava. Na década seguinte, quando filmei Jubiabá, o próprio Jorge Amado me disse que não queria saber do roteiro, que eu mostrasse a ele o filme já pronto”, galhofou.

A releitura de obras literárias mostra ainda outra faceta polêmica. Enquanto os leitores das obras tendem a fazer comparações inevitáveis (e muitas vezes negativas sobre os filmes) por conhecer a fundo os detalhes do livro em si, Nelson Pereira defende que o audiovisual é uma maneira de fomentar novos leitores, estimulando e fomentando a aquisição de conhecimento acerca dos livros que deram origem às obras cinematográficas.  Guel, por sua vez, defende a posição de que, mesmo que não venham a ler os livros originais, os espectadores de plataformas audiovisuais como cinema ou televisão terão uma experiência literária ao assistir aos filmes e seriados.

Por: Iara Lima

Foto: Tom Cabral/Santo Lima

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