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Atravessar o Atlântico, mas no sentido inverso ao dos navios
negreiros que trouxeram ao nosso continente mais de 9 milhões
de escravos, a partir dos primeiros anos do século XVI. Aos
120 anos da Abolição, celebrar o significado da África no
Brasil e na América Latina, nós, afro-brasileiros, afro-latinos,
no confronto aos códigos de discriminação e opressão. Não é
geográfico esse ponto de retorno, uma vez que reside
inquebrantável dentro de nossa memória étnica. Trata-se de um
reencontro com o nosso chão psicológico, nossa paisagem mais
nítida, a fisionomia que não conseguiram tornar invisível.
Latino-americanos a congregar os vários
desdobramentos da diáspora africana nestes tempos
pós-coloniais. Conscientes de suas vastas raízes, sabedores
que os próprios iberos colonizadores já traziam dentro de si o
sangue norte-africano, após 8 séculos em que eles dominaram a
península. Brasileiros que, há cinco anos, têm uma legislação,
a de número 10.639, sancionada a 9 de janeiro de 2003, que
tornou obrigatório, no ensino Fundamental e Médio, o ensino de
história e cultura afro-brasileira e de história e cultura
africana, estabelecendo diretrizes para as relações inter-étnicas
em nosso país.
A educação multicultural vem significar o
resgate da plenitude histórica e social quanto à identidade
racial e à diversidade na sociedade pluriétnica, implementando
ações que superem a falsificação histórica aos afro-descendentes.
Há nas universidades brasileiras um verdadeiro boom de estudos
acadêmicos sobre autores africanos, sobre a formação do
continente e sua evolução desde mesmo a cultura egípcia até os
processos políticos mais recentes. O caminho seguido é a
releitura da historiografia africana, o percurso de seus
traços identitários em fatos marcantes, a preocupação com
problemas comuns, como o desmatamento e a pobreza.
Em 1925, o mexicano José Vasconcelos
afirmou que na América Latina estava se formando uma nova raça,
feita com a riqueza de todas as anteriores, a raça final, a
raça cósmica. Há uma seqüência de pensadores que tem ajudado o
nosso povo a não perder jamais a auto-estima, desde Bartolomá
de Las Casas, o Apóstolo da América, até Simon Bolívar, José
Marti, Sousândrade, José Veríssimo. Sabemos reconhecer a
importância da mitologia azteca, bela como a da Grécia,
sentimos a riqueza de nossa cultura mestiça, sentimos orgulho
da presença africana em nossa cultura, na música, no
temperamento, na literatura.
A terceira versão da FLIPORTO, realizada em
setembro do ano passado, internacionalizou-se e transformou o
Brasil em um pólo congregador dos vários países
latino-americanos. Cuba, Colômbia, Nicarágua, Porto Rico,
República Dominicana, Bolívia, Chile, Peru, México, Argentina,
Uruguai, Venezuela estiveram aqui representados, escritores
referenciais em suas comunidades, com militância ativa em seu
pacto literário. E tudo em um ambiente descontraído,
característico do Nordeste, presentes também grandes nomes
nacionais e pernambucanos, de modo que os convidados ficaram
impressionados inclusive com o grande público presente à
programação literária, em uma euforia compatível com a
intensidade e profissionalismo como foi desenvolvido o nosso
trabalho.
Agora, nos estendemos à África, com o tema
TRILHA DA DIÁSPORA: LITERATURA EM ÁFRICA E AMÉRICA LATINA.
Iremos nos ater mais detalhadamente aos países de língua
portuguesa, porém celebrando autores como a primeira mulher
africana negra a receber o Prêmio Nobel da Paz, Wangari
Maathai (Quênia, 2004) e o primeiro africano negro Prêmio
Nobel de Literatura, Wole Soyinka (Nigéria,1986). Homenageando
o poeta negro Cruz e Sousa, fundador do nosso simbolismo, aos
110 anos de sua passagem, bem como o poeta baiano Castro Alves,
pelos 140 anos da apresentação pública de Tragédia no Mar, que
viria a se chamar O Navio Negreiro (1868). Homenageamos nesta
versão o grande escritor Jorge Amado, pelos 70 anos de
publicação na França de Jubiabá, vitória obtida após haverem
sido queimadas, no ano anterior, as edições de O país do
carnaval, Suor, Cacau, Mar Morte, Capitães de Areia e o
próprio Jubiabá, por determinação da Sexta Região Militar. A
FLIPORTO 2008 presta, ainda, uma significativa homenagem ao
centenário do poeta negro pernambucano Solano Trindade, bem
como aos 120 anos da Abolição. Outro homenageado é Josué de
Castro nos cem anos de nascimento.
Na praia de Porto de
Galinhas, antigo porto de escravos, nos dias 06 a 09 de
novembro, dar-se-á o encontro/reencontro das etnias:
escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau,
São Tomé e Príncipe, debatendo temas de interesse comum com
escritores brasileiros, hispano-americanos, autores
portugueses e espanhóis estudiosos do pós-colonialismo,
teóricos fundamentais contemporâneos dos estudos inter-étnicos
e culturais. Tudo dentro da perspectiva que não vê a
literatura como mero entretenimento, mas como fator
educacional de formação humanística, como parte da cultura,
como princípio ético/estético a preencher o vazio e fortalecer
no homem a coragem, a resistência, o gosto da beleza, a busca
de si mesmo, a solidariedade entre os povos.
ANTÔNIO CAMPOS
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